Alunos protocolam denúncia contra professor que proibiu aluna de assistir aula na UFRN acompanhada da filha

Um grupo de alunos do curso de Ciências Sociais da UFRN entrou nesta quinta-feira (8) com uma representação no departamento que gere a graduação, solicitando que a Universidade apure o que aconteceu na aula de Introdução à Sociologia na última terça-feira (6). Na ocasião, o professor Alípio de Sousa Filho proibiu uma estudante de retornar à sua aula acompanhada da filha, uma menina de cinco anos.

De acordo com o chefe de departamento do curso, professor César Sanson, a representação está assinada pelo Coletivo Acadêmico de Ciências Sociais. Sanson disse que encaminhou o pedido à secretaria do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA) e que, depois, o documento será enviado à reitoria. “Lá a reitora vai apreciar se irá, ou não criar uma comissão de sindicância para apurar os fatos”, explica. Segundo Sanson, este é o trâmite padrão.

O fato aconteceu nesta terça-feira (6) durante a aula de Introdução à Sociologia do curso de Ciências Sociais da UFRN. “Me senti muito mal. Minha filha perguntou se não podia mais assistir às minhas aulas. Se era por causa dela. É uma grande humilhação. A única família dela sou eu. Ela só tem a mim. Foi terrível”, relatou a aluna Waleska Maria Lopes.

Segundo ela, Alípio Filho a informou que não poderia assistir às suas aulas com a criança e ordenou que Waleska se retirasse da sala. A estudante cria a filha sozinha. Nascida no Rio de Janeiro, onde ainda mora sua família, ela veio viver em Pau dos Ferros, região Oeste potiguar, em 2008. Em 2017, mudou-se para Natal com o objetivo de estudar. Conseguiu entrar na UFRN com a nota obtida no Enem. Na capital, divide um imóvel com outras pessoas, onde também vive sua filha. Durante o dia, trabalha como atendente de telemarketing para sustentar as duas, e nesse período a criança fica em uma escola.

Alípio Filho diz que não expulsou a aluna da aula. Contudo o professor admite que proibiu a estudante de voltar novamente a uma aula acompanhada da filha.

“Uma criança de cinco anos, todo mundo sabe, é uma criança que fica inquieta. E a aluna tem que se ocupar com a filha. Se ocupa, porque fica vendo a criança levantar, a criança sentar. E, portanto, a criança fica chamando a atenção da aluna, o que faz com que ela não esteja atenta à aula. Além disso, chama a atenção dos demais alunos”, argumenta.

Creche oferece ajuda

"Independente do que eu acho da situação, eu também sou mãe, eu pensei muito como mãe, pensei muito na criança. Uma criança estar indo todo dia pra uma sala de aula que não tem a ver com ela, é desgastante, é preocupante. Então eu me coloquei no lugar dessa mãe e pensei ‘o que eu posso fazer para ajudar?".

A afirmação é de Mila Titan, pedagoga e empresária, dona da creche Sapiens, localizada em Ponta Negra, na Zona Sul de Natal, que se dispôs a ajudar Waleska Lopes.

"Então decidimos oferecer uma bolsa integral pra ela. Nós funcionamos de 8h às 18h, mas com agendamento a creche funciona 24h. Então ela vai poder vir deixar a filha dela aqui enquanto estiver na faculdade", disse.

A empresária defende que a sociedade precisa se unir para proporcionar um convívio social mais sadio. "Eu acho que se cada um fizer um pouquinho a gente pode conseguir melhorar a sociedade. A humanidade está tão desgastada, violenta, a gente precisa de senso de humanidade, de atitudes positivas. É aquela velha história: gentileza gera gentileza, então vamos espalhar o bem".

Áudio vazou

Depois que a aluna deixou a sala de aula, Alípio Filho seguiu falando com os estudantes que permaneceram no local. O que o professor disse foi gravado e compartilhado em grupos de WhatsApp.

Além de abordar as questões mencionadas por ele na entrevista, referentes aos custos e o respeito à Universidade, o docente também direcionou seu discurso para Waleska. “Ela encontre uma rede de solidariedade para cuidar da criança. Não consegue essa rede de solidariedade? Repense sua vida. Não tem que estar fazendo Ciências Sociais, não tem que estar estudando na universidade. Você só faz isso se tiver condições. Agora não vai impôr à instituição coisas que não são assimiladas pela instituição (…) 'ah, eu sou pobre, não tenho'. Problema seu, a universidade não tem problema com isso, se vire”, disse.

O professor diz que há grupos de alunos que não respeitam as normas da UFRN e querem impôr suas vontades em detrimento do que determina a Universidade dentro dos limites do campus.

“Esse áudio é maravilhoso, eu agradeço a eles por estar divulgando. Porque é o áudio no qual eu mostro as razões da defesa da universidade pública no Brasil. Dizendo que a universidade é cara, nossos salários são caros, numa sociedade de baixos salários, e que por tão cara que é a universidade pública, ela deve ser zelada e respeitada em sua autoridade moral, o que certos alunos não sabem reconhecer. Eu agradeço, e pode colocar na sua matéria, que o professor agradece a divulgação do áudio”, disse Alípio Filho ao G1.

Questionado pela reportagem se tinha conhecimento que a estudante é natural do Rio de Janeiro e não tem familiares próximos no Rio Grande do Norte, o professor afirmou não saber do fato, porém disse que essa informação não interfere em sua análise da situação.

“Não tenho essa informação, mas essa informação não interfere na análise do problema, porque, veja bem, a sociedade tem diversos dramas e problemas. Mas a universidade não pode ser o lugar da resolução de todos esses problemas. A universidade já faz um esforço tremendo de oferecer programas, de oferecer alternativas de amparo à vida estudantil que devem ser reconhecidos Nós temos bolsas de iniciação científica, bolsa alimentação, residência, nós temos essa bolsa creche. A universidade está fazendo o que pode”, declarou.


*G1RN

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